Este ano, a AIESEC Internacional completa 62 anos. Durante todo esse período, a organização seguiu a missão da busca pela paz e do desenvolvimento das potencialidades humanas. Organizando alguns arquivos, o presidente da AIESEC em Porto Alegre encontrou um email enviado, em 1998, por um ex-membro da AIESEC contando como a organização nasceu. Leia abaixo a versão da história da criação da AIESEC contada por um ex-membro.
”Era maio de 1945. A rendição do general Alfred Jold pos um fim ao pesadelo europeu que durou seis anos. Churchill fez o sinal de paz e amor, ao mesmo tempo em que a vitória era celebrada com música e demonstrações democráticas.
Europa? Bem, nós poderíamos muito bem nos referir ao que restou da Europa. A verdade é que o velho continente transformou-se em um lugar onde comemorações tinham como razão esquecer as carências causadas pela ruína econômica pós-guerra. A Alemanha transformara-se em um grupo de cidades e vilarejos completamente demolidos. Sua população, reduzida quase pela metade, estava passando fome e vivendo de caridade de países vizinhos. Os sobreviventes estavam ocupados removendo os escombros das cidades.
A guerra havia destruído 55 milhões de pessoas, ferido 35 milhões e causado o desaparecimento de 3 milhões. As únicas coisas que permaneceram iguais foram as discussões entre as nações e a pobreza.
Na Conferência de Postdam, em julho de 1945, era claro o início da divisão do mundo em dois grandes blocos: URSS e as nações ocidentais. Uma sensação de terror e de incerteza permaneceu no ar ao longo dos anos, apesar das boas intenções das 50 nações que assinaram um contrato de paz com as Nações Unidas em junho de 1945. A Guerra Fria começa.
Em 17 de março de 1948, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Grã-Bretanha, Itália e França formam a Western European Union, com objetivo de defesa. Neste clima tenso, reforçado pela Guerra Fria, nasce a OTAN. Esta era a situação do mundo naqueles anos.

Eric Malson era um estudante de Economia. Tinha 23 anos quando a guerra acabou. Apesar de seu país natal, a Suécia, ter permanecido neutro na guerra, Eric ficou sensibilizado pela desgraça em que se encontrava seu continente. A situação desesperadora em que se encontrava a Europa após tanta matança desnecessária o entristecia muito. Ele se rebelou contra o modo de vida na época. Para ele, um ser humano era só um ser humano, não importando sua raça, ideologia ou religião.
Em janeiro de 1946, Eric escreveu uma carta para um velho amigo na Alemanha. Eles haviam se conhecido há sete anos, na Suécia, durante o período de férias. Apesar de não esperar resposta, resolveu arriscar e escrever mesmo assim. Com o passar dos meses, Eric tornara-se desesperançoso, mas, seis meses depois, recebeu uma carta da Alemanha. A letra, contudo, era da irmã do seu amigo.
O que ela escrevera foi horrível. Na carta, ela contou a Eric sobre a tragédia ocorrida com a família. Seu amigo morrera numa batalha contra a Rússia. Uma das pernas do seu pai havia sido amputada, e seu outro irmão havia desaparecido. A casa da família, em Hannover, fora reduzida a cinzas. Para eles, tudo havia terminado. Todo o esforço de uma vida havia acabado em nada. Não havia esperança.
Eric sentiu seus olhos cheios d’água ao fitar o horizonte. Estava desesperado e, ao mesmo tempo, com raiva. Batendo na mesa, gritou: PAREM!
Eric sentiu que tinha que fazer algo para evitar que acontecesse outra guerra. Não tinha a mínima idéia de como poderia fazê-lo, do alto de sua humilde posição de estudante de Economia. Desde o começo, sabia que precisaria do apoio de outras pessoas, pessoas que sentiam como ele e que compartilhavam seus ideais. Ele teria que procurar por pessoas que passaram pela tragédia da guerra e gostariam de, alguma maneira, melhorar o mundo. Teria que procurar por estas pessoas por toda Europa. E tais pessoas teriam que ser jovens, porque são jovens os responsáveis pelo futuro, futuro que reergueria a Europa após a guerra.
Eric decidiu escrever para amigos por toda a Europa. Enviou dez cartas e recebeu três respostas. As três respostas. As três respostas recebidas eram de estudantes de Economia, que se deliciaram com o ponto de vista de Eric. E isso foi o suficiente para Eric continuar. Era janeiro de 1947.
Alguns meses depois, Eric marcou uma reunião com um antigo professor. Ele tinha boas notícias: sete universidades de sete países diferentes na Europa haviam mandado respostas positivas quanto à proposta de Eric. Eles decidiram ir mais longe, e organizaram uma reunião a fim de formular e coordenar todos os esforços possíveis para construir uma Europa melhor.
A reunião aconteceu no Grand Hotel de Estocolmo. Era março de 1948. Pessoas vieram da Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, França, Bélgica e Países Baixos. Todos sentaram ao redor de uma mesa, metade falando inglês, metade falando francês, mas todos, de alguma maneira, se entendiam. Apesar de, no início, ninguém saber o que seria o resultado daquela reunião, todos tinham esperança e uma mesma visão de futuro. Ao fim da reunião, os participantes haviam dado a luz a algo chamado AIESEC.”